27 novembro, 2011

 é como os traços que desenhamos e não vemos. é como as passadas que damos e não sentimos. eles estam lá um para o outro,mas ainda não sabem. tiram fotografias ás pingas no chão e ainda não olham para o reflexo. limpam a janela do carro em forma de circulo e ainda não repararam na pessoa que o preenche,na pessoa que atravessa o passeio naquele momento,na pessoa que gostavam que olhasse por lá. eles estam lá um para o outro,mas ainda não sabem. eles estão lá para fazer noites,para deixar de sonhar e finalmente tocar,mas ainda não sabem. passeiam de madrugada e desligam o óbvio,desligam o que é duro de acreditar. mas bastava um aperto de mãos,bastava um toque no cabelo,bastava um pequeno almoço nas tascas de rua,bastava um telefonema por engano. bastava. têm os dois o coração grande mas fechado aos enigmas dos dias. preenchem-no com pequenos prazeres que são alimentados pela rotina. já não são grandes prazeres,mas bastam-lhes. preferem deixar o carro estacionado em frente à casa e apanhar um táxi,um comboio e um metro. preferem estar com o alguém que não lhes dizem nada para não pensarem no que lhes diz algo. preferem ver debaixo,do que olhar de cima. têm medo das alturas,têm medo de saberem que são capazes. preferem dormir durante dias com a esperança que o dia em que acordarem,não será igual aos outros. E se estivessem realmente lá um para o outro como estão destinados,se estivessem sentados lado a lado no banco do metro,no banco do táxi,no banco do jardim,recuariam no tempo. no tempo em que tudo era feito como deveria ser,no tempo em que as circunstâncias eram todas boas,no tempo em que eram mais três pés à frente. ainda recordam o tempo que é deles,quando começa a escurecer e os olhos movem-se para onde não deviam. ainda recordam,mas só recordam. bastava um "sempre me lembrei de ti",bastava uma gargalhada sem receio,bastava um encolher de ombros,bastavam os movimentos fluídos como se a qualquer momento,houvesse um impulso nas veias. bastava que olhassem nos olhos um do outro,bastava que enquanto passassem no passeio ao fim da tarde,o tempo se prolongasse. no fundo,ele sabe que ela está cada vez mais bonita, cada vez mais mulher. cada vez mais flutuante,com os saltos altos com que caminha. e continua a olhá-la de longe com medo de a ferir. ainda têm o cheiro nas mãos,nos casacos,no pescoço,nos pulsos,na camisa xadrez. ainda têm tudo,que o tempo não levou. ainda é tudo igual,e eles não sabem. ainda se têm um ao outro como mais ninguém está para eles. e procuram,procuram por nada. secalhar bastava revelar rolos antigos dos tempos dos piqueniques e das feiras populares. secalhar só faltava fazerem tudo de novo,sozinhos. não saberia ao mesmo,saberia a pouco. saberia a falta de alguém,dele. dela. e depois,o toque de coragem para acreditar que o que se viveu, está plantando ainda nos corações dos dois. que não é mais,nem menos,é o sabor que é,de amor. a mesma cidade,os mesmos passeios,os mesmos truques e as mesmas palavras. talvez vidas trocadas,mas sempre cruzadas. à espera do dia,à espera do dia

8 comentários:

inês disse...

Continuo à espera do teu livro

cláudiagomes. disse...

lindo, maravilhoso, perfeito.

Maria Filipa disse...

que maravilha *

Emmeline disse...

deliciada....

simple mind disse...

sem palavras para tanta beleza! adorei* és fantástica

marta disse...

estava mesmo a precisar de "te ler". és linda, vê-se mesmo que tens um coração de ouro (não sei porquê, mas eu sinto). és linda minha joaninha, és linda e pronto...adorei! :)

mary disse...

e tu sempre com grandes palavras, joana. gosto sempre.

annie disse...

este texto fez o meu dia - revi-me tanto aqui. adorar é pouco.
«bastava um "sempre me lembrei de ti"» e «secalhar só faltava fazerem tudo de novo,sozinhos. não saberia ao mesmo,saberia a pouco. saberia a falta de alguém,dele. dela. e depois,o toque de coragem para acreditar que o que se viveu, está plantando ainda nos corações dos dois. que não é mais,nem menos,é o sabor que é,de amor. a mesma cidade,os mesmos passeios,os mesmos truques e as mesmas palavras. talvez vidas trocadas,mas sempre cruzadas. à espera do dia,à espera do dia.» continua sempre assim ♥