29 outubro, 2011

um dó li tá. ás vezes acho que me deixo comparar com as outras coisas. aquelas que não importam. conto-me com elas para ver qual é que começo a dar importância primeiro. é errado não é? eu nem devia fazer parte dessa contagem ou escolha. devia estar sempre no topo,no primeiro lugar. ensinaram-me isso mas eu esqueci tudo. não sei se por conveniência, se ao acaso,mas tenho-me sentido deslocada. estou aqui no parapeito da janela a pensar nisto e talvez até me dê importância ao perder dez minutos a pensar em mim. talvez eu nem me conheça. e há por aí alguém que o faça por mim? aliás,que o queira fazer? sinto-me deslocada e sinto os outros deslocados. sinto que me afasto a cada passo deles. não me entendem,não quero sequer que façam o esforço. sei que se assustam,para quê arriscar? não,o material do meu corpo não é igual ao deles. ás vezes é de porcelana,outra vezes de fita-cola e ainda nos dias estranhos,feito de borras de café. tenho eu histórias para contar a não ser as minhas horas desamparadas feitas de ninguém? já não gosto do som da minha voz. fraca e irritante. sinto que já ninguém a quer ouvir, nem mesmo eu. em que pedestal estou eu? ou melhor,em que pedestal consigo eu estar? o que sei eu aguentar? é tão triste pensar que me deixo andar,sem nada nas mãos,nem dada para agarrar. é tão triste não pensar,ás vezes. mas mesmo que me queira convencer de contrário,sei ainda que não sou feita assim,desta acidez. acordar e não pensar nas coisas que me perturbaram no dia anterior,deitar-me até mesmo com uma lágrima na cara. prefiro isso,a isto. mas prefiro curar-me a mim,do que aos outros. do que ter que contar com os outros. sei que preciso de falar comigo todos os dias,e isso só,ainda me basta. há aí alguém que saiba abanar o meu mundo? que não me trate por comum,com rótulos,só que saiba agir,conforme os instintos. é disso que eu preciso. sem dias de partida. e um segredo? há dias que sinto que há por aí uma ou um igual a mim,no outro lado do mundo ou no outro lado da rua. é nesses dias que me apetece sair a rua,olhar nos olhos e descobrir o que me pertence. dizer-lhe olá e oferecer-lhe um café. olhar para os pormenores e rever-me neles. sei que mesmo que queira,não me consigo esquecer de mim. o tal ninguém faz questão de mo recordar,suavemente,sem grandes precipitações. deixo aqui um bilhete para mim que diz assim- "nem tudo o que é verdadeiramente bonito,se vê. as estrelas? de dia escondem-se envergonhadas e decidem aparecer a noite quando tudo está recolhido. sabem o seu valor e sabem ainda que é de noite que ganham encanto. encontra o teu caminho de volta, que te faça amar cada passada e que te dê brilho por onde passares" dobrei-o e pus em cima da cama. logo à noite vou dizê-lo a cantar. baixinho,só para mim,como quem não quer a coisa.

8 comentários:

Maria Filipa disse...

oh se me identifico *

cláudia disse...

que lindo, e o quanto me identifiquei *

annie disse...

mas que amor, vi-me tanto aqui, joaninha.

karina disse...

é, deslocada é mesmo essa a palavra. lindo e puro.

carina disse...

oh escreves sempre tão...bem

ines disse...

és mesmo uma alma doce

Emmeline disse...

e se eu te contar que as vezes tambem me sinto deslocada. e sinto que ja quase ninguem me sabe ver com o brilho nos olhos que podia existir. aquele que eu tenho no meu olhar sempre que olho para pessoas de quem realmente gosto e preciso que estejam perto.. e se eu te disser que começo a guiar te e a saber de cor o que sao pistas ou nao,que me vao dando a conhecer ou mais reconhecer que isto nem sempre é fictício mas sim um refugio: falar sem sentir que nos julgam pelas palavras quando o que apenas queremos e precisamos é que nos olhem com o coraçao e que ele nao fique guardado no bolso para momentos que virão... se te disser que es eu,acreditas?

Rita disse...

Este texto está incrivelmente bom!